Caros,
o entorno é desfeito. Nuvem saída para lá. Assim, o suspiro que antecede a parada cardíaca é também o automatismo da escrita; o automatismo das imagens; o automatismo dos erros. Objeto re-velado pelo maravilhoso. Fotografia não é arte, é arte. A forma mesma é qualquer coisa disforme. A arte de agir, agere, bravo! A arte da busca. A arte da solidão. A arte dos símbolos, dos signos, dos mitos. Do sexo. Da projeção. Das pontes. Das vitrines. Das escadas. Dos labirintos. Dos portais. Dos corredores. Das galerias. Da imaginação. Do duplo. Das histéricas sobre as árvores. Da bipolaridade. Das invenções (o carro: "vamos?"; o batom: "belo, quando marca o dente"; a camisinha: "estou sem"; a arma de fogo: "mire e atire"; o relógio: "desculpe, não tenho, mas olhe a torre"; a internet: "escreva-me"; a máquina fotográfica: "tic-tic"; o xadrez: "xeque"; o dinheiro: "vá trabalhar"; os jornais: "burguesia alavanca com o fim da revolução francesa"; o teletransporte: "já já"; o banheiro: "com licença"; a televisão: "desligue"; a luz elétrica: "tem vela?"; os bordéis: "..."; as chaves: "as dos sonhos, e sempre tenha uma de reserva").
O ser humano é belo em sua busca. História oculta, verdadeira. Buscas todas que catadupam em uma. As unidades que formam o todo. O uno diverso. A poética da linguagem. A poética do amor. Do guarda-chuva que se fecha pelas vielas do voyeur. Das fendas. Dos engraxates. Do feio. Do grotesco. Da dança. Dos rituais. Das cerimônias. Dos complexos. Do escatológico. Dos monumentos inúteis. Das ciências ocultas, esquecidas. Da onomancia. Da etimologia que des-cobre as palavras mágicas e as palavras são mágicas. Do pensar. Do abandonar. Do debandar da guerra. Da zoofilia mítica. Do jogo dos enamorados. Dos jogos poéticos. A poética das flores que se seduzem à cópula. Das palavras suprimidas que se entoam em vozes novas e novas palavras que se seduzem à cópula. Dos neologismos, palavras dadas à luz, à fartura da vida. Dos títulos. Do maldito. Do Sublime, do Absoluto e do Louco - as três formas possíveis de amar, mesmo. Da amizade. Da curiosidade infantil, universal, inconsciente. Do desejo. Da força creadora. Do verbo. Do existir. Dos perfumes. Do erotismo. Ah, nada é tão pedante quanto explicar o vôo do pássaro entre as estrelas que rolam nos olhos belos do reflexo da poça. Que rolam na escuridão do poço. No paradoxo do ar e na virtude do medo afogado. Na receita ética. No colorido das verdurinhas. Nas árvores de acerola. Nos espelhos. Nas taças. Na primavera tão bela como esses olhos boreais de outono. Nos pântanos da infância onde já me perdi e chorei entre os arames farpados. Nos cabelos da musa. Estrelas que rolam na mão média que comporta os cabelos arrancados e umas tantas lágrimas dessa musa incontida. Na metáfora que se confunde, profusa, pois é uma metáfora de si mesma e diz o indizível, é imagem que erra, é senda primordial! A realidade é metafórica. A loucura é meteórica. É. É hermafrodita. Luz que jorra de um prato e esfria o café num bafo cinzento. As cores se modelam, e meus olhos cortejam o delírio para a realidade - tão efêmera, tão bem vestida de noiva e a buscar sua plumagem de cisne, incompreendida de quando em quando, por hábito. Fumo, bebo, e rio e choro e sorrio - quiçá amo - por motivos inocentes, na vontade a priori de não me esconder - é que aquele arco-íris era, mesmo, demasiado belo! Mergulho num mar de rosas quando sinto calor. Flano pelos sonhos quando cansado. Não me canso de ser, não mais, e me canso. A vida me encara, a morte me encara, toco-as e acabamos em orgia. "Sim, um café, vidas minhas...", respondo à solicitude de ambas e acordo entre vagabundos. Mansão de pragas, fortaleza velada, vigília sensível. Entrego à primeira linha da máquina de escrever a borracha rasgadora de almas enquanto a tinta prossegue seu sublime calvário com patas de aranha, en marche! E o fortuito estará aqui, e algures, e alhures - sempre será. Talvez seja o universo uma cagada - ó acaso, que divindade obscura és!, perto da lógica parca. É o mistério filosófico do ser, o ínterim e o outro. Da vida que se dá por causa da vida. Do amor que só existe se mutuamente acordado, ou não será amor. Dos detalhes que deixo de perceber, dos detalhes manifestos em curto-circuito, e outros debalde. É o sujeito que, sem si, não seria. Sonhei um sonho o qual eu dizia que acreditava em tudo e não separava o orgânico do inorgânico. A frase faz sentido. A coisa toda é infinita (...). Poesis, grande!
Certa feita assisti, por acaso, a uma cena de um filme monocromático, daqueles malditos franceses, e que perguntava, de maneira retórica, pela voz de um personagem trajado em terno e chapéu-coco, isto: "Você já esteve no infinito? Eu já, e é muito bonito". Qual!, bastava!, só necessitava aquela cena, bela como o beijo das paralelas. (...) Digo, apesar dos esforços contrários - principalmente literários, pobres diabos em suas barricadas banguelas -, o conteúdo e a forma acabaram encarcerados, e metralhados, e também o entorno. Metralhados convulsivamente. Já que disse de fotografia, (in memoriam) eis registrado, em legenda, o belo poderio de tal metralha - que não poupou nem bananeiras:
"O grupo de destemidos defensores na Curva da Galinha
As fotos, datadas de 31 de agosto de 1924, mostram o local dos fatos, com anotações, como as duas casinhas na Curva da Galinha. “Deste lugar os revoltosos metralhavam a cadeia”. Registraram também a estrada que dava acesso a Rio Preto.: “Chegaram por aqui os revoltosos: 18 automóveis - 138 homens - 2 metralhadoras. Foram postos em fuga pelos sete destemidos defensores: (...) 31-8-1924”. Fotografaram também as bananeiras do quintal das casas, que foram metralhadas."
Despeço-me,